positivonegativo

"nós somos o sítio que nos faz falta."

"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço."


Álvaro de Campos

Quinta-feira, 21 de Julho de 2011

visitas.

como sempre, fui visitá-lo. encontrei-o sentado, como enfim, em todas as tardes da sua velhice o encontro, e perguntei o que estava a fazer.

estou a sofrer.

estou a sofrer, diz-me ele, e geme enquanto se contorce na cadeira. a cadela chega e deita-se aos meus pés, queres que vá chamar a avó, pergunto, e ele diz que não, ela fica a olhar. confessa-me o quanto reza a deus, e nunca está melhor, e eu nunca estou melhor, e sei que ele reza por todos. é a justiça de deus, penso, obrigar-nos a estar aqui mais de oitenta anos a sofrer, a rezar para ele ainda se rir dos poucos seguidores que tem.

olho para ele e baixo o rosto, se não choro.

estou pronto, ele admite. não sou imortal, algum dia tenho que ir.

a cadela espreguiça-se. dou-lhe um abraço e digo que amanhã tudo estará melhor, ainda por cima os seus filhos vêm visitá-lo hoje, tem de estar contente. amanhã tudo será melhor. e sei que não é nada assim, amanhã tudo estará pior, amanhã estará um dia mais morto, ele e eu, e todos nós. sorrio-lhe, a cadela está a olhar para mim.

narmy. às 16:20
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14 :
De ana gonçalves a 21 de Julho de 2011 às 16:37
Foi o texto mais triste que já li. Mas é verdade. A cada dia que passa estamos todos um pouco mais mortos.


De hopeless romantic a 21 de Julho de 2011 às 16:39
a ele, deixava-o tudo.


De hopeless romantic a 21 de Julho de 2011 às 16:40
não acho o texto nada bonito, apenas deprimente.


De marlene cerm a 21 de Julho de 2011 às 16:51
Meus avós foram todos para o outro mundo, novos. Nenhum ultrapassou os 75, tomara alcançar os 80. Todos os dias morremos mais um pouco, mas nessas idades, o peso de cada dia é fulcral, é decisivo. Nem quero imaginar a dor que é estar meramente à espera do tal dia, ainda por cima em sofrimento. Apesar de ser cristã, aqui está algo que nunca entendi bem. Talvez o Senhor lá em cima esteja realmente a rir (espero bem que não!).
Acho que são pessoas como tu que reduzem o quão lúgubre é chegar a estas alturas da vida. Tenho pena de só ter visitado uma avó. Ainda hoje recordo as visitas. Não havia nenhuma cadela, só os melros que entravam pelas paredes já degradadas. Minha mãe implorava-a para viver connosco e ela ficava umas semanas, mas depois insistia em voltar para o seu lar. A casa velha, isolada no final duma canada, lar de muitos melros e memórias.


De marlene cerm a 21 de Julho de 2011 às 16:55
Eu adoraria viver em Crad'lla.
Ele era original, com um toque inexpressível e não me canso de olhar para os quadros. Este é o que está em casa dos meus tios: http://2.bp.blogspot.com/_NgybmGW-xe4/SOfn_2zJGrI/AAAAAAAAABk/I79eEzJe-uc/s400/mucha-hours.jpg (Em cada divisória da casa, uma destas quatro sibaritas.)

Maet, E.


De summer wright a 21 de Julho de 2011 às 16:57
amanhã estás um dia mais próxima da reencarnação. pensa assim.


De vans a 21 de Julho de 2011 às 17:01
sinceramente, também eu.


De marlene cerm a 21 de Julho de 2011 às 17:15
Às vezes não percebo o que é que Ele pretende. Mas vá, ainda não desisti completamente dele.
A minha avó até que era bastante social, mas para o fim sentia-se melhor na sua casa. Minha mãe sempre me disse que havia algo de paranormal naquela casa. Há histórias que ela e os meus tios que me contam que me deixam boquiaberta. Eu teria, certamente, fugido a sete pés. Mas minha avó não. Gostava daquele sítio, gostava dos ruídos e situações inexplicáveis. Oh, e eu aqui com 17 anos e já prego sermões maiores que o Padre António Vieira. (Vá, atirem-me pedras!)
Obrigada.

A série das estações! Quero ver se acho um exemplar, se acumulo dinheiro e a ponho cá em minha casa. Seria um sonho.


De marlene cerm a 21 de Julho de 2011 às 17:23
Somos duas a pensar o mesmo, então.


De Aurelle a 21 de Julho de 2011 às 21:49
apesar de muito melancólico, está muito bonito.
gostei do novo visual do blog, está simples mas belo.


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