positivonegativo

"nós somos o sítio que nos faz falta."

"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço."


Álvaro de Campos

Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011

hoje faço dezassete anos.

Aniversário

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

 

álvaro de campos

(post programado)

narmy. às 16:00
| comentar | favoritos
20 :
De dolcescrittora a 10 de Agosto de 2011 às 16:20
parabéns. Para mim o dia de aniversário nunca fez sentido.


De Bolacha a 10 de Agosto de 2011 às 16:25
Parabéns!
(esse é o meu poema preferido do Álvaro de Campos)


De Fii a 10 de Agosto de 2011 às 16:41
Parabéns! :D


De summer wright a 10 de Agosto de 2011 às 16:46
parabéns.


De the girl by the lake a 10 de Agosto de 2011 às 17:36
Que estrondoso poema... Espero que passes um dia agradável, os meus parabéns :)


De Carolina a 10 de Agosto de 2011 às 18:11
parabéns! :)


De - huun a 10 de Agosto de 2011 às 18:12
dei este poema a PT e gostei tanto ! e olha, muitos parabéns *


De in-perfeita a 10 de Agosto de 2011 às 18:20
Parabéns narmy.
Um beijo e um forte abraço por este dia tão especial na tua vida.
Sara


De vans a 10 de Agosto de 2011 às 18:23
PARABÉÉÉNS! :)


De p;αndяαde. ॐ a 10 de Agosto de 2011 às 18:57
parabéns.


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