positivonegativo

"nós somos o sítio que nos faz falta."

"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço."


Álvaro de Campos

Quarta-feira, 28 de Março de 2012

a resposta.

bem, esta é a resposta a todos os comentários do post anterior, visto que todos perguntam o mesmo. duvido que muitos de vocês leiam até ao fim, mas escrevo-vos na mesma. provavelmente vão achar o meu problema absurdo. bem, cá dentro das coisas não são tão absurdas assim

desde os treze anos que desejo secretamente ir embora desta casa e ter uma vida, e esse desejo tornou-se ainda mais importante quando fiz quinze anos e passei a ser aluna do secundário, na área de artes - área que os meus pais não apoiaram que seguisse e que me trouxe alguns problemas a nível familiar que me perseguem desde há alguns anos. vivo numa casa de gente quadrada e de mente demasiado fechada, e nunca fui uma pessoa livre. tenho uma mente demasiado liberal e ao contrário de muitas das meninas dos blogs - e, aparentemente da minha vida real também - os meus sonhos não residem em príncipes encantados e os meus problemas não passam por desgostos amorosos, mas sim pela prisão em que vivo desde sempre. imaginem que tudo aquilo que sempre quiseram era a liberdade, a oportunidade de serem grandes, de conhecerem gente importante, de fazer verdadeiramente algo neste mundo. desde que entrei no secundário, a esperança de me ir embora sempre foi o que me manteve cá, e a vontade de finalmente poder desenvolver todas as minhas capacidades artísticas, de finalmente poder ter uma explosão intelectual à minha volta, sempre me seguiram ao longo dos três anos infernais que foram o meu secundário. talvez não percebam isto desta forma, dar-vos-ei um exemplo mais simples. todos vocês (ou uma grande parte) amam o verão e a praia e passam os vossos três meses de férias com os vossos amigos nesse tipo de sítios. enquanto que vocês amam a praia, aquilo que eu amo é a cidade e os museus e as exposições e as actuações e a cultura. tudo aquilo que eu sempre desejei foi poder ter contacto com a arte, mais do que ficar fechada na minha casa e no meu colégio com os mesmos ideais hipócritas de sempre. vocês passam três dos vossos meses de férias na praia, eu passo três dos meus dias do ano em exposições. acontece que na minha casa, tal como no resto do país, há uma desvalorização geral da arte. como posso eu suportar isto, se o que mais amo no mundo é o que faço? talvez vos pareça que seja simples ir a uma exposição. bem, na minha casa não é. não é simples sair daqui porque não há transporte para tal - vivo naquilo a que os meus amigos chamam de fim do mundo - e os meus pais não apoiam nem aprovam estas decisões, o que faz com que desde sempre eu tenha sido privada daquilo que gosto, atrofiada intelectualmente - se não fosse a internet e os meus livros, estava privada de qualquer tipo de conhecimento DE TODO. quero dizer, como posso desenvolver as minhas capacidades artísticas sem contacto com a arte? como posso não ter contacto com a arte se o que quero fazer da minha vida é somente ser artista? ninguém deve ser privado da arte. ninguém deve viver num meio de desvalorização geral daquilo que mais ama.

com o final do meu secundário, aproximou-se o que mais quis ao longo destes três anos: a universidade, a possibilidade de ir embora, a hipótese de ir para a cidade, para a cultura, para o mundo, mas a universidade onde quero entrar, apesar de ser longe, não é longe o suficiente para que os meus pais achem que eu deva ir viver para a cidade. não ir viver para a cidade significa ficar aqui. ficar aqui significa continuar privada de tudo aquilo que me poderá fazer grande. ficar privada de tudo aquilo que me poderá fazer grande significa perder tudo aquilo para que vivi e tudo aquilo por que lutei ao longo de todos estes anos. significa que tudo o que sofri por aquilo que escolhi foi em vão, significa que nunca mais sairei daqui, significa que enfim, vou continuar a viver numa prisão, vou continuar privada do mundo, vou continuar a viver miseravelmente, ou que não vou continuar a viver de todo. não sei se vocês conseguirão algum dia perceber a grandeza de a gravidade que isto terá na minha vida, nem sei se vocês conseguem perceber que não poder ter a oportunidade de finalmente realizar os meus sonhos significa que viver não fará mais sentido, não será mais preciso de todo. se eu não for embora, vou acabar por morrer. mesmo que não morra fisicamente, morre-se-me tudo. morrem-se-me tudo aquilo com que sonhei. fiquei tantos anos há espera, que aquilo que desejei foi tudo o que me fez seguir em frente. se perder tudo agora, bem...

contudo, há uma pequena esperança, uma esperança muito remota de ir embora. vai ser tão difícil que as possibilidades de conseguir vão ser quase nulas. os meus pais nunca o vão querer e nunca o vão apoiar. se vocês, os meus leitores, gostam de mim, então desejem muito que eu consiga, desejem muito muito muito que eu vá embora, porque se eu não conseguir, vou cair numa miséria tão grande que o meu coração não vai ser capaz de acreditar em mais nada, e a minha infelicidade vai ser tão grande que.... enfim... nem sei o que dizer... esta explicação é estúpida e sinto que não vos transmiti mesmo a minha aflição, provavelmente nenhum de vocês vai entender porque é que isto é assim tão importante, vai-vos parecer apenas estúpido, mas para mim é uma das coisas que tenho de mais importância na vida.

narmy. às 19:24
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15 :
De Fii a 28 de Março de 2012 às 20:11
Bem, depois de ler este post compreendi a que te referes, e deixa-me dizer-te que apesar de eu apenas ser uma rapariga de 17 anos, e muitas vezes ainda me verem como uma "criança", acho que não devemos privar ninguém dos seus sonhos. Os teus pais deviam apoiar-te, visto que o facto de os nossos sonhos se tornarem realidade, contribuem em larga escala para a nossa felicidade. Talvez eles abram os olhos a tempo... Demonstra-lhes o que significa isso para ti. :) Faz tudo o que estiveres ao teu alcance... Mas nunca desistas de um sonho.
Espero, sinceramente, que consigas. :)


De G a 28 de Março de 2012 às 20:15
vai em frente força nisso, vais entrar na faculdade que queres e tudo vai melhorar.


De summer wright a 28 de Março de 2012 às 20:28
não percebo porque dizes que isso é estúpido e porque partes do princípio que não vamos compreender que isso te mata aos poucos. posso não ter as mesmas aflições que tu, aliás, não deveria queixar-me, uma vez que nunca me faltou nada...mas compreendo o que é sentir que a vida não tem sentido. acredita que compreendo.
eu espero sinceramente que consigas. há muita gente que passa por coisas semelhantes às tuas e consegue vencer na vida; espero que seja assim contigo.
talvez se conseguisses juntar dinheiro, quem sabe trabalhar em part time, consigas ganhar dinheiro para viveres na cidade, numa república, ou numa casa alugada com alguém para poderes gastar menos. muito boa sorte, narmy.
desculpa se não tenho passado muito por cá, mas não é que ande muito ligada aos blogs, especialmente porque dantes sabia dizer muito melhor a pessoas com problemas; agora sou tão deprimente como as vossas situações e não sirvo nem para aconselhar.
que tudo te corra como esperas. beijinho.


De fugiu a 28 de Março de 2012 às 20:43
Não é estúpido, são apenas os teus objectivos e são importantes porque nunca te sentirás realizada se tudo isso com que sonhas não se torne realidade.
Estou a torcer por ti.


De C. a 28 de Março de 2012 às 22:02
És uma pessoa extremamente forte, sabes disso.Vais conseguir aquilo que queres!
Beijinho


De marlene cerm a 28 de Março de 2012 às 22:19
Minha querida, as artes para ti são como a medicina para mim. Do mesmo modo que passas o Verão em exposições, eu recuso saídas se está a dar documentários sobre doenças raras. Por isso, compreendo a tua aflição, parcialmente, porém, compreendo o quão importante é esta mudança para ti e o quanto necessitas dela. É horrível esperar anos por algo e depois vê-la fugir. Eu também não vejo a hora de chegar à universidade e ter a minha independência e acho injusto que os teus pais te tirem isso, por isso, vou desejar-te o máximo de sorte possível, espero mesmo que consigas ir viver sozinha e seguir o teu sonho. Não duvido quando digo que serás uma grande artista e quererei ver trabalhos teus!


De Raquel a 28 de Março de 2012 às 22:26
Narmy, sinceramente, percebo-te do fundo do coração; não no que toca ao ter pais quadrado, porque, felizmente, os meus pais são bastante liberais. No entanto, aqui em Tavira - que pode ser igualmente considerada o fim do mundo - não existem muitos museus e exposições são raras. De vez em quando existem umas coisas giras, como workshops (quando houve um workshop de escrita criativa, eu tive mesmo que ir - e foi assim que fiquei amiga da Rose - daqui dos blogues - que é das pessoas que mais gosta de arte, no sentido geral, que eu conheço). Isto, para te dizer que percebo porque te sentes frustrada. É muito importante fazermos aquilo que gostamos e, se não for assim, não vale a pena viver - porque o objetivo de viver, no meu ver, é mesmo fazermos aquilo que gostamos, que nos caracteriza, que nos torna quem somos e que nos faz acordar todos os dias com pica. Por isso, acredita nessa remota hipótese que tu tens. Mais: diz aos teus o seguinte "Eu compreendo as vossas escolhas, as vossas crenças e os vossos objetivos. Mas vocês têm de compreender que não temos a mesma perspectiva de vida e que, quer queiram quer não, vão ter de aceitar que a minha vida é a Arte. Não posso deixar de fazer o que gosto, não posso nem quero abdicar dos meus sonhos, porque só eles me alimentam a vontade de viver. Chegou a altura de eu tomar as minhas próprias decisões. Vocês já me ensinaram tudo o que podiam. Ajudaram-me a crescer, mas agora têm de me deixar percorrer o meu próprio caminho e eu não posso ficar à espera que percebam que já não tenho cinco ano e que já sei fazer as coisas sozinha. Gosto muito de vocês, mas também gosto de mim. Agora que vou para Universidade, está hora de se despedirem da vossa menina. Sempre que quiserem vão poder visitar-me e eu venho visitar-vos também. Mas vamos ter que nos despedir.". A sério, Narmy, diz que tens de falar muito, mas mesmo muito a sério com eles. Faz com que eles se sentem no sofá e fica em pé à frente deles - porque estás a marcar posição e em linguagem corporal significa que tu é que mandas, porque eles têm que olhar para cima para te poderem encarar - e diz-lhes isto. Basicamente. Com as tuas próprias palavras. Mas acho que percebeste a ideia. Luta. Por Ti.


De Violinista a 29 de Março de 2012 às 00:36
Compreendo, porque é isso que sinto. Não acho estúpido, acho que é sério e aflitivo estar nessa situação.
Como pessoa que sabe, não quero que haja mais pessoas no mundo a passar pelo mesmo; por isso, desejo que te consigas libertar.


De ana gonçalves a 29 de Março de 2012 às 09:19
Sei bem aquilo que passas. Eu não vivo longe do mundo e de todos mas é como se vivesse. O meu pai não é muito liberal e tem medo por mim porque, como ele diz: as pessoas de agora não são de fiar e os perigos andam em cada esquina. E portanto, ir a exposições ou museus, só em visitas de estudo - e ainda assim essas são escassas porque a minha escola... enfim. Por isso eu percebo-te. E percebo aquilo por que passas e aquilo que te aflige. Espero, do fundo do coração, que consigas a tua liberdade. Eu espero a minha também. Muita força narmy, não quero que desistas ainda antes do fim. Beijinhos


De Polaris a 29 de Março de 2012 às 11:52
as pessoas desvalorizam completamente a arte. digo que quero seguir música e desvalorizam. dizem que a música não salva vidas, como se não fosse uma profissão digna ou meramente secundária.

eu acho que a arte salva vidas. salvou-me a mim e a ti.

pessoalmente, fazia de tudo para sair dessa casa e dava tudo para sair da minha. é difícil. sempre posso falar com o Manel a ver se ele arranja espacinho para ti :)

beijinhos


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